Existe um momento que quase todo mundo conhece e pouca gente comenta. O texto está escrito, a foto foi escolhida com cuidado, e o dedo fica parado em cima do botão de publicar, como se pesasse mais que o resto do corpo. Nesse segundo, a cabeça começa a fazer perguntas que não fazia minutos antes.
E se acharem ridículo? E se meus filhos virem, ou aquele antigo colega comentar com ironia? O que meus parentes vão pensar? Esse segundo que trava acontece com frequência, com profissionais experientes e com gente famosa, e ele revela muito mais do que vergonha. Ele mostra o quanto nos importa a imagem que os outros guardam de nós.
Eu sei bem o que é isso. A primeira vez que fiz uma palestra, para estudantes do curso de administração, eu travei. Minha boca secou. Parecia o deserto do Saara. Minha garganta fechou e minha voz não saía. Achei aquilo ridículo (depois, é claro): eu estava acostumada a dar palestras, pequenas é verdade, mas nunca senti um travamento igual ao que eu senti naquele dia. E fiquei me perguntando o porquê. Eu queria achar um motivo, pois nada justificava aquele sentimento. Mas aí veio um clique na minha cabeça: meu marido estava na plateia. Mesmo sem saber, o medo do julgamento dele me sabotou. E esse medo era totalmente injustificado porque meu marido sempre me incentivou. Hoje percebo que o botão de publicar é o palco da nossa geração, e quem está na plateia, muitas vezes, são justamente as pessoas que mais amamos.
Esse medo não é falta de coragem
A primeira coisa que quase ninguém conta é que o medo de aparecer na internet raramente tem a ver com coragem. Pessoas que atravessaram demissões, doenças, mudanças de cidade e criaram filhos travam diante de um vídeo de um minuto. Não é fraqueza, porque a exposição nas redes mexe com algo que nos acompanha a vida inteira, a nossa reputação.
No post anterior, falei da frase que as pessoas usam para descrever você quando você não está na sala, e que forma a sua marca pessoal. Quem tem 60 ou 70 anos construiu essa frase com cuidado, ao longo de décadas, e é natural querer protegê-la. O medo, nesse caso, é uma forma de zelo. O problema começa quando o zelo vira parede e impede você de compartilhar justamente o que poderia ajudar alguém.
Os três rostos do mesmo medo
Nas conversas com pessoas da nossa geração, percebo que o medo de se expor costuma aparecer com três rostos. O mais forte é o do julgamento, e curiosamente não é o de estranhos que pesa mais. Pesa o olhar de quem conhece a gente, como os parentes, os filhos, os netos, os ex-colegas e os vizinhos, e o receio de parecer que estamos querendo aparecer ou que estamos fora de lugar.
Por trás desse receio, muitas vezes, existe uma régua antiga que diz que a internet é coisa de jovem. Escrevi sobre ela em o erro de medir sua capacidade com a régua da juventude, e vale a leitura se essa voz costuma falar alto aí dentro de você. A régua é antiga, mas a gente segue usando sem nem perceber.
O segundo rosto do medo é o da tecnologia. E se eu apertar o botão errado, apagar tudo ou publicar e não souber tirar? Esse medo é concreto e merece respeito, mas ele diminui com a prática, como aconteceu quando aprendemos a usar o caixa eletrônico ou o celular. Ninguém precisa dominar todas as ferramentas para começar, basta fazer bem duas ou três coisas.
O terceiro rosto é o mais silencioso, e ele se resume numa pergunta, quem sou eu para falar disso? A pessoa sabe muito sobre um assunto, mas acha que não tem autoridade porque sempre haverá alguém que sabe mais. Sempre haverá, é verdade. Só que quem está começando raramente precisa da maior especialista do mundo, e sim de alguém que já passou por ali e explica com calma.
Quando o alarme quer decidir por você
Gosto de pensar no medo como um alarme. Ele avisa que algo importante está em jogo, e ouvi-lo é sensato, mas ele foi feito para nos proteger de perigos, e não para escolher o que vale a pena. Por isso me ajuda trocar a pergunta. Em vez de perguntar se vão achar ridículo, pergunte quem pode ser ajudado se você publicar aquilo, e o foco sai de você e vai para quem precisa do que você sabe.
Lembro-me do dia em que fui convidada para dar uma palestra sobre marca pessoal no marketing digital. A plateia: mais de mil pessoas. E pessoas famosas como palestrantes, antes e depois de mim. Quase uma hora antes me conduziram para o camarim. Até aquele momento eu estava tranquila, assistindo ao evento com meus amigos. No camarim lindamente decorado e com quitutes deliciosos, eu fiquei sozinha. E o medo se instalou. A boca secou, as mãos tremiam demais. Pensei em desistir, mas seria pior. Então, quando me chamaram, subi ao palco.
Nem consegui olhar o público direito. Porém, assim que peguei o microfone e comecei a palestra do jeito que eu tinha ensaiado, o medo me abandonou. Senti uma segurança muito grande, com total conhecimento daquilo que eu estava falando. Terminei a palestra e, ouvindo os aplausos, me senti vitoriosa.
O que eu aprendi em palestras é que devemos nos preparar muito bem. O medo nunca vai nos abandonar, mas ele já não é mais aquele bicho-papão que seca sua boca e trava sua garganta. E o julgamento das pessoas mais próximas vai se tornando menos prejudicial para nosso trabalho, vamos adquirindo envergadura, autoridade, credibilidade e confiança em nós mesmos.
Aparecer aos poucos também é aparecer
Ninguém precisa sair do anonimato direto para um vídeo ao vivo. Dá para aparecer em degraus, começando por escrever antes de gravar, porque um texto curto expõe menos do que o rosto e a voz. Depois, vale mostrar as mãos, a estante ou a mesa de trabalho, que já contam muito sobre quem você é.
Outro degrau é começar por um grupo pequeno, com os Melhores Amigos do Instagram (a lista que limita quem vê o que você publica) ou um grupo de família no WhatsApp. A voz também pode chegar antes do rosto, num áudio. Cada degrau deixa o próximo mais leve, e quem decide quando subir é você.
A crítica, o silêncio e o que fazer com cada um
A crítica pode vir, sim, e vale separar dois tipos. A que traz um ponto útil merece agradecimento e talvez um texto melhor na próxima vez. O comentário que só quer ferir não merece a sua energia, e ignorar, apagar ou bloquear não é falta de educação, é cuidado com o seu espaço.
Muitas vezes, porém, o que mais dói é o silêncio. Você publica com carinho e quase nada acontece. Isso é normal no começo e não significa que ninguém leu, porque muita gente lê, se identifica, fica quieta e aparece meses depois dizendo que viu aquilo que você escreveu.
Também não é preciso multidão para valer a pena, como contei no texto sobre por que você não precisa de milhões de seguidores depois dos 60. Às vezes, uma única pessoa ajudada já justifica a publicação inteira, e é ela que vai lembrar do seu nome.
Do outro lado da tela tem alguém esperando
A minha opinião, depois de tantos anos acompanhando pessoas que chegaram ao digital com o coração na mão, é clara. Aparecer na internet não é se exibir, é compartilhar. Do outro lado da tela existe alguém de 50, 60 ou 70 anos procurando exatamente o que você viveu, o que aprendeu e o jeito como você explica as coisas, e enquanto a sua experiência fica guardada por medo, essa pessoa continua sem resposta.
O medo provavelmente não vai embora de uma vez, e tudo bem. Ele pode viajar junto, desde que não sente no banco do motorista. Comece pelo menor degrau que couber na sua semana e observe o que acontece com você depois.
Agora quero ouvir você. Qual desses três rostos do medo fala mais alto aí, o julgamento, a tecnologia ou o quem sou eu para falar disso? Conte aqui nos comentários ou, se preferir conversar em particular, me escreva no e-mail [email protected]. Se quiser conhecer melhor a minha trajetória, visite a página Quem Somos.

Sou Deborah Perrone, escritora, mentora de posicionamento digital e marca pessoal e criadora do blog Horizontes Digitais. Atuo no marketing digital desde 2016 e sou formada em Filosofia e Administração, com pós-graduação em Pedagogia Empresarial. Abro as portas do digital para pessoas de 50, 60, 70+ que querem transformar conhecimento, experiência e histórias de vida em um produto digital que leve a sua própria assinatura.

