A xícara bonita era para as visitas, mas…
Hoje vi um post no Instagram que me fez pensar no meio da tarde. A frase era curta, quase simples demais, mas bateu em algum lugar fundo, daqueles que a gente carrega sem perceber. Dizia assim: “Fracassamos quando a xícara bonita é para as visitas e a louça velha é para nossa família.”
Eu li e fiquei pensativa. Porque na minha casa era exatamente assim. Não era só a xícara. Era o vinho guardado no armário alto, o licor que só saía quando chegava visita importante, o pão fresco que a gente via passar e não podia comer. Tudo o que era melhor, mais bonito ou mais gostoso ficava reservado. Para os outros. Para quando “viesse alguém”. E nós ficávamos com o que era de todo dia: a louça velha, o vinho barato com água e açúcar (para as crianças), as coisas que não eram consideradas para “as visitas”.
Vou guardar para depois
Eu cresci vendo isso o tempo todo. Eu comia devagar os doces e as frutas, nos almoços de domingo. Não era frescura. Era medo de acabar logo. A gente não sabia quando aquilo ia aparecer de novo na nossa mesa. Então o pedaço do bolo, a fruta mais difícil de achar na feira, a gente deixava por último. Como se guardar o melhor para o final fosse uma maneira de fazer o momento render, de esticar o prazer um pouco mais. Eu me lembro de olhar para aquele último pedacinho e pensar: “Vou guardar para depois.”
As roupas contavam a mesma história. Passavam de irmão para irmão, de prima para prima. Para as meninas, os vestidos iam e vinham. Eu ganhava coisas da minha prima rica que morava na capital: peças que já tinham sido dela, mas que para mim eram novas. Eu pensava que ela era rica porque as roupas eram maravilhosas e bem pouco usadas. Eu também tinha os meus poucos, de festa, feitos por uma costureira com mãos mágicas.
Foi ali, naquele vaivém de tecidos e roupas que não eram exatamente novas, mas que carregavam história e carinho, que nasceu minha paixão pela alfaiataria, pelas roupas bem cortadas e que se moldam ao nosso corpo. Eu via a diferença na hora. Sentia quando uma peça tinha sido pensada com atenção, quando o caimento era perfeito, quando o tecido caía de um jeito que valorizava quem vestia. Aquela experiência me ensinou a olhar para a roupa não como objeto, mas como forma de respeito próprio. E isso ficou comigo até hoje.
Filmes na TV na casa da avó
Mas o que mais me marcava era os filmes na TV. Na casa da minha avó — a única da cidade que tinha televisão —, eu me sentava no chão ou no sofá de couro e assistia aos filmes da época de ouro de Hollywood. Mesmo sendo os anos 60, os filmes que chegavam até nós eram dos anos 40. Eu assistia àquelas mulheres com vestidos que pareciam esculpidos no corpo, com cinturas marcadas, tecidos que brilhavam, e aos homens de terno impecável, ombros largos, gravata perfeita.
O mundo daquelas telas parecia outro planeta. Um planeta onde tudo era bonito, onde as pessoas se moviam com graça, onde a beleza era parte do dia a dia, para elas e não para as visitas.
Eu voltava para casa com os olhos cheios daquela imagem e o coração dividido: de um lado, a realidade da casa, da louça velha, das coisas guardadas; do outro lado, o sonho que brilhava na tela preta e branca. Um pé na necessidade de todos os dias. Outro pé no desejo de algo maior, mais elegante, mais cheio de possibilidades. Um mundo a descobrir.
Essa dualidade me formou de um jeito profundo. Eu aprendi a valorizar o que é feito com cuidado, mesmo quando é simples. Aprendi que o belo não precisa ser novo para ser especial, às vezes é exatamente o contrário. Aprendi que a gente pode viver com pouco e ainda assim carregar um universo inteiro de beleza e esperança.
Necessidade de ter o pé no chão
Aquela menina que guardava o doce para o final e que via Hollywood na casa da avó era bastante ingênua, “sempre sonhando” dizia os adultos. Mas ela se tornou prática e sonhadora ao mesmo tempo. Beleza e a necessidade de ter o pé no chão. E essa combinação me acompanhou a vida inteira
Hoje tenho 70 anos. Sou mentora de marcas e posicionamento pessoal e profissional na Internet. E, olhando para trás, vejo que aquelas lições e experiências não foram limitações. Foram sementes. A escassez me ensinou a apreciar mais o que temos de melhor. O “guardar para depois” me ensinou a saborear o momento quando ele chega. A roupa passada de irmão para irmão me ensinou que estilo não é preço, é um olhar diferenciado, com atenção e respeito por você. E os filmes da casa da minha avó me ensinaram que o mundo pode ser maior do que a sala de estar — e que vale a pena sonhar para interagir com ele.
Eu não fico presa ao passado. Pelo contrário. Eu olho para ele com gratidão porque foi ali que aprendi a não desperdiçar o que é bom, a não separar o “melhor” só para impressionar os outros. E foi ali também que aprendi a manter o sonho vivo mesmo quando a realidade era simples.
O melhor não precisa ficar guardado, como seu conhecimento
Por isso, eu ainda sou otimista o suficiente para acreditar que a vida não acaba enquanto você tem sonhos e possibilidades. Que ainda temos tempo de seguir sonhos, de torná-los realidade, de viver a melhor fase. Porque aquela menina que via beleza até nas coisas guardadas continua aqui. Ela só cresceu. E continua acreditando que o melhor (sdeu conhecimento) não precisa ficar guardado para as visitas.
O melhor pode — e deve — ser vivido agora, com quem a gente ama, no dia a dia que a gente constrói o futuro sonhado e planejado.
Talvez o verdadeiro fracasso não seja guardar a xícara bonita para visitas. Talvez o verdadeiro fracasso seja acreditar que o melhor da vida já passou ou que não é para você. Eu não acredito nisso.
E você? Você ainda sonha com um futuro relevante? O que você ainda guarda para “depois”? E o que você ainda sonha em viver agora, com a mesma fome de beleza e possibilidade de uma menina que assistia filmes antigos na casa da avó?
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