Durante muito tempo, apesar da disciplina rígida das fábricas, grande parte das pessoas ainda enxergava o trabalho principalmente como obrigação prática.
Mas o século XX transformaria isso profundamente. A ascensão profissional virou símbolo de realização pessoal.
Em algum momento, a profissão deixou de representar apenas aquilo que alguém fazia para viver e passou a representar quem a pessoa era. Foi uma mudança construída ao longo de décadas, impulsionada pela consolidação do modelo corporativo moderno.
O trabalho começou a ocupar um espaço emocional que antes pertencia a outras estruturas da vida social: família, comunidade, religião, tradição e pertencimento coletivo.
Pela primeira vez em larga escala, milhões de pessoas passaram a organizar sonhos, autoestima e reconhecimento social em torno da vida profissional. O emprego deixou de ser apenas fonte de renda para tornar-se projeto de identidade social e profissional.
Talvez seja por isso que uma pergunta aparentemente simples ganhou tanto peso cultural: “O que você faz?” A resposta não era apenas uma mera informação. Buscava-se localizar alguém dentro de uma hierarquia simbólica da sociedade. Executivo. Médico. Professor. Empresário. Engenheira. Diretora. Advogado. A profissão passou a funcionar quase como um resumo social da pessoa.
Esse movimento foi especialmente forte após a Segunda Guerra Mundial, quando muitos países viveram décadas de crescimento econômico, estabilidade institucional e expansão corporativa. Em grande parte do Ocidente, consolidou-se a ideia de que uma vida bem-sucedida seguia um roteiro relativamente previsível: estudar, conseguir um bom emprego, crescer profissionalmente, adquirir estabilidade e aposentar-se no futuro.
Nascia a era da carreira moderna. Durante décadas, esse modelo ofereceu algo muito poderoso psicologicamente: a previsibilidade.
A empresa não fornecia apenas salário. Fornecia identidade, rotina, pertencimento, status e direção de vida. Em muitos casos, permanecer longos anos na mesma organização era motivo de orgulho social. O trabalho passou a organizar não apenas o tempo, mas também o valor pessoal.
A geração que viveu o fim da carreira linear
E talvez nenhuma geração tenha sido tão profundamente formada por essa lógica quanto as pessoas que hoje têm mais de 60 anos. Essas pessoas cresceram num período em que permanência era virtude, estabilidade era objetivo, lealdade profissional era valorizada e crescimento linear ainda parecia possível.
A profissão funcionava como âncora psicológica e social. O trabalho prometia segurança financeira, reconhecimento, rotina, pertencimento, reputação e, muitas vezes, autoestima. Ou seja, não se tratava apenas de “ter um emprego”. Tratava-se de construir uma identidade inteira em torno dele.
Por isso, para muitos dos 60+, aposentar-se ou perder relevância profissional pode produzir algo muito mais profundo do que simples mudança financeira. Em certos casos, surge uma sensação de deslocamento existencial. Como se o mundo profissional no qual viveram por muitos anos tivesse começado a desaparecer.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo.
Muitas pessoas 60+ foram treinadas para construir estabilidade, mas envelheceram em um mundo que começou a valorizar adaptabilidade. Foram educadas para aprofundamento, permanência e especialização, mas passaram a viver em uma cultura marcada por reinvenção constante, atualização contínua e múltiplas identidades profissionais.
Talvez isso explique por que tantas pessoas acima dos 60 anos se sentem deslocados diante do novo mercado, fadiga emocional, sensação de desconexão e dificuldade em compreender o trabalho contemporâneo. Alguns sentem até culpa por não desejarem participar da hiper performance moderna.
A cultura do desempenho
Se na era industrial clássica o controle vinha principalmente das fábricas e supervisores, no final do século XX parte dessa pressão começou a ser internalizada pelo próprio indivíduo.
Embora hoje estejamos muito longe das fábricas da chamada primeira Revolução Industrial, parte da mentalidade criada naquele período continua viva: a ideia de que o tempo deve ser aproveitado ao máximo; a culpa associada à improdutividade; a valorização do excesso de ocupação; a associação entre trabalho e mérito pessoal.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han argumenta que a sociedade contemporânea ainda carrega consequências profundas dessa lógica produtiva. Segundo ele, o mundo moderno transformou o desempenho em obrigação permanente. O indivíduo não apenas trabalha. Ele precisa, ainda, provar constantemente o seu valor, a sua eficiência e a sua capacidade de adaptação. Ele próprio se transforma em fonte permanente de autocobrança.
Talvez isso explique por que tantas pessoas passaram a sentir dificuldade em descansar sem culpa. Ou porque estar ocupado se tornou, para muitos, uma espécie de sinal de valor pessoal. Aos poucos, a produtividade deixou de representar apenas necessidade econômica e começou a funcionar também como medida simbólica de relevância social. E a tecnologia acelerou esse processo.
Com computadores, celulares e internet, o trabalho deixou de permanecer restrito a escritórios e fábricas. Ele entrou em casa, atravessou finais de semana, invadiu férias e a fronteira entre vida profissional e vida pessoal começou a desaparecer.
Em alguns países, essa lógica alcançou níveis particularmente intensos.
No Japão, por exemplo, consolidou-se ao longo do século XX uma cultura corporativa marcada por uma disciplina rigorosa, longas jornadas e forte lealdade às empresas. O fenômeno tornou-se tão extremo que surgiu o termo “karoshi”, utilizado para descrever mortes relacionadas ao excesso de trabalho físico e psicológico.
Já na China, especialmente durante o crescimento acelerado das últimas décadas, popularizou-se o modelo “996”: trabalhar das 9h da manhã até 9h da noite, seis dias por semana. Embora esse padrão tenha sido amplamente criticado nos últimos anos, ele revela como a lógica produtiva industrial ainda pode coexistir com economias altamente tecnológicas e competitivas.
Talvez a grande questão do século XXI seja justamente esta: em que momento a eficiência deixou de ser apenas uma ferramenta de trabalho e começou a definir o valor emocional das pessoas?
O sucesso passou a ser medido
Ao mesmo tempo, as redes sociais ampliaram a comparação e a visibilidade. O sucesso passou a ser constantemente exibido, medido e observado.
Muitos 60+ cresceram numa época em que sucesso profissional prometia algo emocionalmente muito forte: a sensação de “chegar lá”.
Só que o século XXI começou a desmontar essa promessa.
Hoje, empregos desaparecem rapidamente, profissões mudam constantemente, empresas deixaram de garantir permanência e a identidade profissional tornou-se muito mais frágil.
Talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas estejam começando a reavaliar sua relação com trabalho, produtividade e sucesso. Não apenas porque envelheceram, mas porque o próprio modelo psicológico que sustentava a ideia de carreira começou a mudar.
O século XXI não alterou apenas profissões. Alterou a maneira como os seres humanos constroem valor, reconhecimento, pertencimento, produtividade e identidade.
No próximo artigo, vamos explorar o auge desse modelo de estabilidade e a promessa que definiu o imaginário profissional de milhões de pessoas: a era da segurança corporativa e da carreira linear.
Referências
Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. São Paulo. Editora Vozes.
Artigo sobre Karoshi. Disponível em <Tracing the Origins of Karoshi: Death From Overwork> Acesso em 12 de maio de 2026.
Artigo sobre a cultura “996” Disponível em <China ‘996’ work culture dates back 2,200 years, shows work-life balance struggles through the ages> Acesso em 12 de maio de 2026




